1ª leitura - Act 5, 12-16
2ª leitura - Ap 1, 9,11a-13. 17-19
Evangelho - Jo 20, 19-31
O tempo pascal, que se prolonga durante cinquenta dias até à festa do Pentecostes, é um longo tempo de saborear e recuperar o núcleo central da fé cristã, a ressurreição de Jesus. É um tempo marcado pela alegria e pela esperança. Não sei até que ponto nos vamos dando conta que o simples facto de nos chamarmos e definirmos como cristãos tem a sua origem precisamente no facto da Ressurreição.
A Ressurreição é o grande mistério da nossa fé. Ninguém presenciou aquilo que sucedeu na manhã de Domingo após a sepultura de Jesus. O que temos conhecimento é aquilo que os discípulos experimentaram, afirmando que O viram Vivo e isso mudou para sempre as suas vidas. Gosto muito da ideia de pensar na nossa vida como um livro que se vai escrevendo, ou cada dia como uma página em branco que vai sendo escrita e desenhada com aquilo que vai acontecendo em nós e à nossa volta.
A experiência da ressurreição transforma a vida em algo de radicalmente novo. Seria quase como a experiência de João que, no início do Apocalipse, descreve esta visão de um Filho do Homem, que se revela como Jesus Ressuscitado, que pede para escrever aquilo que vai presenciar. O Tempo de Páscoa é esta disposição para escrever uma nova história, de libertação, de alegria, cheia de sentido e esperança.
Vemos como, diariamente, somos confrontados com a realidade do sofrimento, do desespero, da tristeza e da morte. Vivemos tudo isto na nossa pele, nas pessoas que nos são queridas ou nas notícias que lemos nos jornais. Estamos diante de um mundo que ainda necessita de cura, de esperança. O papel do discípulo que conhece o Ressuscitado é de levar a consolação e a vida de Deus aos que sofrem, escrever uma página nova na vida de tantas pessoas. Os Actos dos Apóstolos descrevem os inícios da comunidade cristã e, como todos os relatos de origem, tem muito de idealização e apresentam um aspecto programático. A acção de Pedro e dos apóstolos é a linha de fundo da missão da Igreja e de cada cristão em particular. Por isso, mesmo que muitos fiquem fascinados com o apostolo, não o seguem, mas a sua presença toca, cura e liberta. É um desafio constante à autenticidade da nossa vida cristã: o perguntarmo-nos onde a nossa sombra que passa deixa a marca de algo com mais sentido, que traga uma experiência de libertação. Os cristãos têm um poder extraordinário de transformar o mundo desde dentro, em cada circunstância. Porque sabem que o mal e a morte não podem ter a última palavra. Estaremos convencidos deste poder que temos?
Este poder é o Espírito Santo que nos é dado, como o sopro de Jesus aos apóstolos, no Evangelho de hoje. Vi o Senhor! É a exclamação de um coração tocado e transformado pela Ressurreição. Muitas vezes, temos dificuldade em perceber onde vemos Jesus, como Tomé, que precisa de provas concretas, de tocar e ver com os próprios olhos. Ora, a fé é uma coisa muito diferente de um conhecimento científico. Ter fé é acreditar sem ver, e perceber que se deve dar a vida por aquilo que toca misteriosamente o nosso coração. Não podemos provar matematicamente o nosso nível de amor, simplesmente sabemos que é total, e a Vida concreta acaba por o provar. Somos felizes se acreditamos sem ter visto, somos felizes porque damos a Vida porque a recebemos da forma mais abundante possível, ao jeito de Deus...
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