As leituras que a liturgia deste Domingo nos apresenta têm como tema central uma novidade enorme. Uma luz brilha nas trevas. É o grande grito de aclamação e alegria presente no texto de Isaías que ouvimos na primeira leitura e que é repetido no Evangelho, quando Mateus começa a narrar o início da vida pública de Jesus. Reparemos num pormenor curioso. O anúncio diz respeito sobretudo ao povo que vive nas trevas, mas esta luz refere-se não só às pessoas, mas também aos lugares: é o caminho do mar, a terra de Zabulão e de Neftali, a Galileia dos gentios. Por isso, vemos que a luz de Deus resplandece em lugares e não só nos corações das pessoas.
Deus cria um ambiente onde nos movemos, a sua presença invade o nosso contexto, os lugares da nossa vida e não fica dependente da possibilidade de nos darmos conta ou não desta presença.
Isto tem como ponto de partida e seu motivo a total iniciativa de Deus que vem ao nosso encontro. Não é por acaso que ouvimos esta mesma leitura no dia de Natal, há cerca de um mês atrás. A manifestação de Deus não fica isolada no menino de Belém, mas é uma manifestação contínua, na nossa vida concreta. A revelação do mistério de Deus não são actos isolados, por muito significativos e centrais que sejam, mas é uma revelação que acompanha cada dia e cada momento da nossa história.
Deus não cessa de, continuamente, vir ao nosso encontro, criando em tudo a possibilidade de o reconhecermos e acolhermos. Porque Deus olha a nossa vida com grande interesse, inteiramente debruçado sobre os nossos assuntos, os nossos problemas, as nossas alegrias e os nossos desejos.
E o que é que isso muda no modo de vivermos a nossa vida? Se formos conscientes de que a luz de Deus brilha na nossa vida, mesmo que tenham momentos de obscuridade e treva, tenho a certeza que isso muda muito, aliás, muda tudo. Uma dificuldade, um sofrimento, são também lugares de manifestação, fazem-nos cair na conta da nossa fragilidade, da nossa dispersão interior e ajuda-nos a centrarmo-nos e a crescermos em coisas fundamentais. Aliás, já temos a experiência de como momentos difíceis da nossa vida nos ajudaram a crescer e a descobrir coisas acerca de nós que antes não sabíamos nem supúnhamos.
O nosso drama é quando tentamos fugir e evitamos confrontar-nos com os desafios que a vida nos coloca todos os dias. Mas se formos conscientes que a luz de Deus brilha no nosso ambiente, então damo-nos conta que esta luz põe a descoberto a nossa verdade, indica-nos um caminho, propõe-nos objectivos que não nos fecham no medo, mas fazem-nos arriscar e caminhar com coração grande e peito aberto.
Para um cristão, a vida e o mundo, com as suas luzes e as suas sombras são a terra onde brilha a luz de Deus, que continuamente nos chama a confiar e fazermos de tudo uma oprtunidade de termos uma vida mais completa.
O anúncio desta luz é acompanhado pelo chamamento dos discípulos que, curiosamente estão a lançar redes ou a consertar as redes. A voz de Jesus que os chama, fá-los deixar as redes, o que seriam as nossas situações que nos amarram, confundem e prendem, e seguem Jesus com prontidão.
O primeiro anúncio de Jesus é este convite a repararmos que o Reino dos céus está próximo, está aqui junto de nós, é a luz que brilha na nossa terra. Se nos dermos conta desta chegada e desta presença do Reino, que é o próprio Jesus, então deixaremos que a luz brilhe nas trevas. A conversão é acreditar no Evangelho, que é a boa notícia da presença de Deus entre nós, que cura as nossas enfermidades, os nossos medos e desânimos, faz-nos viver na confiança.
Deixemos que Jesus nos chame, como a estes discípulos com as redes, sentados à beira do mar. Que o seu convite nos faça levantar e deixar tudo o que nos prende e bloqueia, nos ajude a convertermo-nos, que é olhar numa outra direcção, viver de uma maneira nova, como filhos da luz.
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