As leituras que hoje temos na liturgia do V Domingo do Tempo Comum abrem com um texto difícil, que toca a realidade humana no seu aspecto mais difícil e dramático. O livro de Job é um longo diálogo entre Job, o homem do sofrimento e três amigos quo o visitam para o consolar da sua desgraça. O texto que ouvimos apresenta-nos o drama humano da falta de sentido e horizonte da vida. Deita-se já desanimado com a hora em que se vai levantar, sabendo que vai encarar mais um dia de sofrimento. Levanta-se já a desejar a hora do deitar, para que chegue ao fim mais um dia difícil. E os seus dias desvanecem-se sem esperança. É tremenda a realidade humana quando não espera, quando não encontra luz para os seus caminhos. A escritura está cheia destes episódios e expressões que mostram como a vida humana, com toda a sua grandeza, não consegue evitar a dor. São expressões densas e difíceis de digerir. Quase nos custa ouvi-las porque põem a nu aquilo que tantas vezes sentimos e aquilo que observamos também no mundo à nossa volta.
A escritura não evita a realidade humana tal como ela é, se não, estaríamos a ouvir um conjunto de fábulas bonitas que nos desligam da nossa vida. “Os meus olhos nunca mais verão a felicidade”. E aqui estamos diante da expressão máxima de quem está prestes a cruzar os braços e não esperar mais nada do dia de amanhã. Não gostaríamos certamente de viver assim, mas o facto é que, muitas vezes, o dia seguinte apresenta-se como mais do mesmo, sem novidade. Podemos não viver o mesmo drama de Job, mas vivemos esta experiência de uma espécie de cansaço existencial, uma rotina que nos faz viver automaticamente. Se não esperamos nada de novo, então o horizonte da nossa vida está fechado, sem luz e sem glória. Podemos viver até pequenas felicidades, mas falta-nos, no mais fundo de nós, uma “rampa de lançamento” para a vida. As notícias que ouvimos diariamente parece que nos convencem que não há nada de bom a esperar no futuro, e tentamos defender-nos a todo o custo do impacto das conjunturas e das circunstâncias. Como se fôssemos rodas na engrenagem que acabam por não poder decidir nada acerca do próprio destino. Podemos viver tão atados e paralisados nos esquemas que nos são impostos e que impomos a nós mesmos. E assim, convenecemo-nos, quase inconscinetemente que, de facto, “os nossos olhos nunca mais verão a felicidade”.
Mas se o cristianismo nos apresenta a fé e a esperança como o motor da nossa vida, como é que esta proposta tem eco, é consistente, tem densidade, para não cair numa promessa ingénua que não reflecte o nosso dia-a-dia e as questões que nos colocamos mais seriamente? Como é que a esperança é eficaz, sem ser apenas uma promessa de que, no fim da vida, alcançaremos a felicidade? O cristianismo não levaria a sério a vida humana se nos prometesse uma felicidade apenas depois da morte. Se assim fosse, toda a nossa vida seria estarmos aqui, “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Com todo o respeito e devoção que tenho pela oração tão bonita do “Salvé Rainha”, a nossa vida não pode ser só isto, não é desterro. Somos herdeiros de uma mentalidade, também religiosa e que teve o seu tempo, que nos fez deixar de acreditar no céu que já vivemos aqui. E se não experimentamos já o céu, como é que o podemos desejar? Se não, a encarnação de Jesus não teria tido nenhum impacto na nossa história. Se o próprio Deus esteve e permanece no meio de nós, como é que podemos olhar a vida como vale de lágrimas?
O Evangelho mostra-nos o caminho, neste episódio tão vivo e cheio de momentos, reacções, acções. Convido-vos a parar nesta frase:
“Ao cair da tarde, já depois do sol posto, trouxeram-lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta”. Não sei se têm conhecimento, no mundo bíblico, o dia não começa com o nascer do sol, mas começa com o pôr do sol. Já depois do sol posto são “todos” os doentes e “toda” a cidade que estão diante da porta. O novo dia começa com uma reunião de todos diante de uma porta.
O episódio não se refere apenas aos habitantes de Cafarnaúm, naquele dia concreto, mas designa toda a humanidade, na qual nós estamos. A Bíblia não evita o sofrimento, a doença e a procura. A humanidade coloca-se toda diante da porta daquele que tem palavras e gestos poderosos de salvação. A porta dá entrada a uma casa, um espaço de intimidade e de comunhão. É o lugar onde se habita. Entrar no espaço onde Jesus está é encontrar um novo horizonte de vida, é deixar que o próprio Deus toque e cure as nossas doenças, não só as físicas, mas sobretudo as coisas que nos desanimam.
Mais tarde, Pedro encontra Jesus e repete a mesma expressão: Estão “todos” à tua procura. E Jesus responde, vamos às aldeias vizinhas, para aí eu pregar, porque foi para isso que eu vim. Nós procuramos e Deus vem ao nosso encontro. Este Deus que vem aos nossos lugares, às nossas casas, que quer tocar e curar a nossa humanidade, não poderá ser o sinal mais evidente da esperança cristã?
Seremos capazes de experimentar, no nosso desânimo e na nossa falta de horizonte, que é aí precisamente que Deus nos anuncia um gesto novo e uma palavra nova? Mais do que procurar, somos procurados, mais do que perguntar, somos respondidos, mais do que ver somos vistos.
3 comentários:
P. António Valério
Muito obrigada por esta reflexão de hoje e por todo este trabalho que coloca nas nossas vidas.
De facto "é tremenda a realidade humana quando não há esperança" e a sua proposta é um caminho de esperança.
Li este texto após ter lido as notícias principais do dia.
Com o espetro de desemprego a ensombrar o meu pequeno mundo, a incerteza quanto ao futuro, a contagem diária dos cêntimos, para não gastar mais do que posso, para que chegue ao fim do mês com algum dinheiro... estas palavras foram um bálsamo.
Obrigada por colocar ao serviço dos outros toda essa perspicácia, sabedoria e sensibilidade.
Precisamos muito de palavras com sentido e sentidas.
Precisamos que nos relembrem que Jesus está presente, que devemos confiar. E acima de tudo reagir, agindo.
Li este texto após ter lido as notícias principais do dia.
Com o espetro de desemprego a ensombrar o meu pequeno mundo, a incerteza quanto ao futuro, a contagem diária dos cêntimos, para não gastar mais do que posso, para que chegue ao fim do mês com algum dinheiro... estas palavras foram um bálsamo.
Obrigada por colocar ao serviço dos outros toda essa perspicácia, sabedoria e sensibilidade.
Precisamos muito de palavras com sentido e sentidas.
Precisamos que nos relembrem que Jesus está presente, que devemos confiar. E acima de tudo reagir, agindo.
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