22 maio, 2010

Domingo de Pentecostes

1ª leitura - Actos 2, 1-11
2ª leitura - 1 Cor, 12, 3b-7.12-13
Evangelho - Jo 20, 19-23

"Ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus". A leitura dos Actos dos Apóstolos termina com esta expressão de admiração das pessoas que assistem à primeira pregação dos Apóstolos, depois da descida do Espírito Santo. É o resultado deste acontecimento misterioso, contado na versão de S. Lucas, em que os discípulos de Jesus, depois de O terem visto ressuscitado, recebem de Deus o seu Espírito e começam a anunciar aquilo que testemunharam.

A descida do Espírito Santo não se entende como um momento de magia, em que a pessoa passa instantaneamente de um estado a outro. O Pentecostes é entendido na continuação daquilo que os discípulos foram vivendo desde que conheceram Jesus e foram chamados por Ele. Teriam primeiro de passar pela experiência de conhecer Jesus, vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo, de presenciarem os seus discursos e os seus gestos, de passar pela terrível confusão da Paixão e, finalmente, pela experiência de verem Jesus ressuscitado. A vinda do Espírito Santo é o momento em que os discípulos lêem a sua própria história e a reconhecem como profundamente tocada por uma surpresa, que enche de tal modo o coração de alegria e sentido, que é impossível que não o possam comunicar.

O dia de Pentecostes é, desde o início da reflexão cristã, considerando o dia do nascimento da Igreja. Assim, a Igreja nasce como fruto de uma necessidade irreprimível de anunciar as maravilhas de Deus. No fundo, é aquilo que cada cristão é chamado a fazer, só o ser tocado por Deus o lança na aventura e no desejo de O comunicar, em palavras e em gestos. O grande fruto do Espírito Santo é tornar acessível à nossa memória e à nossa inteligência, a obra de Deus em nós. Por isso, os discípulos perceberam, e todos os que os ouvem os percebem na sua própria língua. Em Jesus e no seu Espírito, Deus deixa de ser misterioso, faz parte da nossa humanidade e desafia-nos a conhecê-lo cada vez mais em profundidade.

Nesta missão de anunciar a Vida de Deus no mundo, Deus conta com cada um de nós, na nossa existência concreta, como afirma S. Paulo na 2a leitura. Todos temos dons, carismas, e cada um é essencial para a formação do Corpo de Cristo, que, no fundo, é a construção de um mundo baseado na verdade, na justiça, na solidariedade, no perdão e na alegria. A cada um é confiada a missão de usar plenamente a própria bondade e a própria força. É a acção do mesmo Espírito que não nos deixa ficar aquém daquilo que podemos fazer de realmente grande e positivo.

No Evangelho, temos a versão de S. João desta mesma experiência, em que Jesus dá aos discípulos o Espírito Santo. O gesto é muito significativo, sopra sobre eles. Tal como na criação do homem, no relato do Génesis, Deus sopra sobre Adão para lhe dar a Vida, assim Jesus sopra sobre os discípulos para lhes dar também uma nova vida. De facto, é impossível que o toque de Deus na nossa Vida não nos faça diferentes. Peçamos a graça de tomar consciência da acção de Deus em nós e sobretudo a graça de abrimos o coração à sua Vida.

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